sexta-feira, 17 de julho de 2020

Leave

Conheci a Marime hoje. Que voz. Que belas canções. Mas esta canção, Leave, parece que me tocou mais profundamente. De uma forma diferente. O Youtube voltava para ela várias vezes. Decidi prestar atenção na letra para ver o que ela dizia especificamente. Engraçado como algo consegue tocar a gente mesmo sem que a gente tenha entendido, inicialmente, o que queria dizer.

"There's a million things I'll never do if I stay with you"

É assim que eu me sentia ao seu lado. Eu queria ficar. Eu queria continuar te amando. Sonhando uma vida contigo. Mas há um milhão de coisas que eu jamais faria se eu continuasse com você.

Eu precisei ir embora para me salvar, você entende isso? Eu pensei por tanto tempo que você fosse o meu prometido, a minha, enfim, salvação. Mas você não era. Eu só identifiquei que não era quando saí. Eu precisei me afastar para entender que o nosso relacionamento mais me machucou que me fez bem...

Mas eu não estou arrependida de ter vivido o que vivi contigo, não. Eu te amei muito, talvez ainda até ame de alguma forma. Eu quis muito que desse certo, nossa, como eu quis. Eu coloquei todas as minhas forças para que a gente vivesse aquilo que eu imaginava que viveríamos desde que havia o reencontrado na adolescência.

Nossa, como seria incrível, não? O garoto que sempre foi apaixonado por mim seria de fato meu príncipe e viveríamos felizes para sempre. Digno de um roteiro de filme. Igual aqueles filmes que eu sempre assisti. Era tudo que eu sempre quis. Era?

Era. Estar ao seu lado foi importante para ver que não era um príncipe que eu queria. Não era apenas ter ao meu lado alguém que me amasse. Eu preciso de mais. Eu quero mais. Eu mereço mais.

Mas como exigir um amor de alguém sendo que nem eu mesma me amava? Por isso eu não tenho arrependimento de termos vivido o que vivemos. Você foi importante para me mostrar que o amor de ninguém será suficiente (não que o seu chegasse nem próximo disso, ok?) enquanto eu não me amar.

O desistir de nós foi para não desistir de mim.

"I just need to save me before my heart breaks"

Só que meu coração quebrou. Em muitos pedacinhos. E ele começou a se quebrar contigo ao meu lado. E você não quis me ajudar a juntar os pedacinhos. Você se fechou cada vez mais na sua vida e eu fiquei lá, desolada, buscando que o meu amor por nós fosse suficiente para fazer com que nós seguíssemos juntos. Eu não consegui. Mas que bom que não.

Hoje eu estou colando os pedacinhos que ficaram aqui e identificando um amor que sai de mim e volta para mim mesma. Isso não tem preço. Por isso eu não me arrependo do que vivemos. Foi assim que eu descobri que eu estou melhor sozinha.

"But for now, we'll be better off alone"

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Centro da Vida

Acho que a ideia é que hoje, após minha sessão de terapia, eu ficasse melhor do que eu já estava, porque parece que, finalmente, eu descobri porque minha vida parece ficar rodando, rodando, sem sair do lugar, desde 2017. Mas não estou me sentindo bem, ao contrário, estou bem triste.

Parece que eu sei o que precisa se fazer para sair de tudo isso, mas me faltam forças. Eu estou cansada. Estou cansada de ter que fazer o que eu não quis fazer. Em nenhum momento eu quis ser advogada. Eu nunca sonhei isso para mim. Ainda mais tendo que começar logo em uma ação contra um criminoso que tentou justamente passar a perna em mim. Eu não quis isso.

Mas eu fiz. E continuo fazendo. E me dói. Cada linha escrita, cada passo desse processo e de tudo que o envolve me machuca, me dilacera. Não é isso que eu quis para mim. E eu sei que para encerar tudo isso, só depende de mim mesma. Eu preciso terminar o que já comecei. Mas eu não queria. Faz sentido isso?

Eu estou exausta. Da quarentena. Do meu convívio com minha família. Do meu trabalho. Da minha vida. Como eu cheguei até aqui? Será que foi por deixar que os outros decidissem o que eu deveria decidir? O que eu fiz por mim, enquanto uma profissional, durante a minha vida?

Até que ponto eu fiz as coisas que eu quis fazer ou eu apenas fiz o que tinha que ser feito? Eu entrei em uma faculdade que não quis. Formei em um curso que eu não gosto. Trabalho com essa graduação que não gosto. Tudo por que eu tenho que fazer isso? É isso que será minha vida?

Eu quero poder olhar para tudo isso e deixar no passado daqui uns anos. Talvez eu não esteja bem porque enfim eu constatei porque o Direito me dói e me faz tão mal. Não é, especificamente, o Direito. Mas a forma como eu tive que começar a atuar no Direito. Eu tive que pegar a OAB para atuar nessa ação. A mesma ação que me fez ter um grande rompimento com minha mãe. A mesma ação que me fez ver quem de fato era meu 'irmão'. A mesma ação que me fez virar adulta. A mesma ação que me persegue e atormenta até hoje. 

A minha atuação no Direito não se resumiu ao Direito, não. Ao contrário, ela se resumiu a essa minha atuação. A alguns empregos como advogada em alguns escritórios que busquei e não obtive sucesso. A minha atuação não foi escolhida, ela foi porque tinha que ser. Eu estou cansada de fazer o que tenho que fazer.

Eu quero poder fazer o que eu quero fazer. Só de planejar um trabalho por um tempo com algo que eu quero, nossa, eu virei outra pessoa. Será, meu Deus, que isso é possível para mim? 

Eu preciso conseguir seguir a minha vida, que, segundo a minha psicóloga, eu já sei que não é onde acho que estou, e deixar que essa parte dolorida, forçada, seja apenas um pedacinho do que de fato é minha vida.

Eu estagnei em um local que não me cabe, que não é onde eu quero e nem onde eu deveria estar. Isso não sou eu. Eu tenho encarado que minha vida é resumida a isso, que eu fiquei parada todos esses anos apenas atuando nessa ação, mas não é verdade. Eu não parei...

Talvez meus sentimentos estejam lá ainda. Minha dor. Meu medo. Minha mágoa. Minha angústia. Por isso dói, por isso machuca. Por isso é tão difícil prosseguir e dar um rumo para tudo isso. Mas isso não sou eu. Esta não é a minha vida.

Eu sei onde quero levar minha vida. Eu sei o que enche meus olhos, enche meu coração. Eu sei onde eu posso atuar e poderei ajudar muitas pessoas. É isso que eu quero. É isso que é minha vida.

O "centro da minha vida" não é essa dor torturante que me corrói por dentro. Eu sou muito maior que tudo isso e eu vou mostrar para todos isso. Melhor, eu vou mostrar para mim mesma que eu sou maior que tudo isso. Eu vou ser a pessoa que me dá a mão, que me dá afeto e diz: Vai, você consegue. Você é muito maior que tudo isso. Eu sei que é.

E eu sou. Eu verei que sou. 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Seguindo um novo caminho

Hoje eu tenho lembrado tanto de você. E é um lembrar diferente. Não está mais com tanta dor. Não é um lembrar querendo retomar nosso relacionamento também. É um lembrar mais com saudade do que foi bom. E realmente teve muita coisa que foi boa.

Veio muito a minha memória hoje de um dia que saímos para almoçar e você comentou que queria fazer um concurso em outra cidade e, caso passasse, claro que eu teria que ir contigo. Aquilo pareceu tão real naquele momento, não pareceu? Eu realmente me via mudando contigo e construindo uma vida em conjunto. O morar com alguém nunca tinha parecido tão real e possível antes de você.

Eu te amei demais. E, claro, eu sei que te amo de alguma forma ainda, mas não daquele mesmo jeito. Eu não me vejo mais construindo uma vida contigo. Mas não dói, como já doeu, pensar que não conseguimos seguir em frente com o nosso relacionamento.

Claro que ter a consciência de que fiz de tudo que podia e, talvez, até mais do que conseguia para tentar que seguíssemos juntos alivia muito minha mente também. Não sei se você consegue ter a mesma tranquilidade e talvez isso seja o que mais machuque você. Mas eu acho que, dentro do que você sabia e dentro do que era possível naquele momento, você fez o que conseguia. E foi bom, foi muito bom em alguns momentos.

Poxa, já pensou que, finalmente, após anos nos conhecendo, finalmente a gente ficou junto de verdade? A gente transformou uma ilusão em algo real. Nós nos amamos, nos relacionamos, ficamos juntos, sonhamos juntos, fizemos amor. Tenho certeza que, por muito tempo, isso não passava de um sonho distante para você. Eu confesso que, por muitas vezes, sequer achei que isso pudesse acontecer, principalmente depois daquela nossa tentativa fracassada de ficarmos juntos da primeira vez.

Nós de fato tivemos muitas chances. Como você bem disse, quantas pessoas não têm nem uma segunda chance, não é mesmo? Nós tivemos várias. E acho que já estou conseguindo alcançar um nível de amadurecimento e de entendimento de que, nesta última chance que tivemos, nós, de fato, fizemos dar certo.

E daí que não foi para sempre? E daí que não foi exatamente como eu imaginei ou como você queria que tivesse sido? Nós fizemos dar certo dentro do que conseguíamos fazer naquele momento.

Você cuidou de mim da melhor forma que conseguiu e eu também tentei cuidar de você até onde você me deixou cuidar. Acho que o que mais aprendemos um com o outro foi isso: cuidado. O quanto o cuidado é necessário e o quanto ele faz falta também.

Você foi o primeiro cara que passou pela minha vida que me ofereceu o mínimo de cuidado que eu já recebi em um relacionamento. Você, de fato, preocupava-se comigo. O que chega a ser irônico, porque o que nos levou ao fim foi constatar que este mínimo de cuidado que eu estava recebendo de você era pouco.

Mas eu talvez nunca constatasse isso se eu não tivesse recebido esse pouco de cuidado que você me deu, sabe? E eu consigo reconhecer isso hoje. Foi graças a isso que eu consegui despertar e perceber que eu não mereço pouco, eu mereço muito e, principalmente, mereço um muito que venha de mim mesma.

Você foi essencial para que eu percebesse que eu preciso cuidar de mim e me amar, não esperar isso vir de fora. Só que foi praticamente uma vida achando que eu tinha que receber isso de outro alguém. E foi justamente receber um pouco disso de outro alguém que me fez acordar e perceber que nada seria suficiente se esse cuidado e amor não viessem, primeiramente, de mim mesma. Antes de tudo.

E eu sou grata por isso. Contigo eu entendi que é possível ser amada mesmo tendo vários defeitos, várias dificuldades. Eu te amei assim também, não é mesmo? E é isso que eu espero que eu possa ter te ensinado também. Amar alguém não é ter alguém perfeito ao seu lado, mas é caminhar ao lado dessa pessoa e superar todos os obstáculos juntos.

Você me perdeu quando não me deixou caminhar ao seu lado e superar os obstáculos contigo. Eu te perdi quando constatei que aquele mínimo de cuidado que você me dava era muito pouco perto do que eu queria e do que eu merecia.

Mas eu não sei se teria percebido isso se você não tivesse passado pela minha vida. E isso é muito lindo. Daquele poço que eu fui caindo e caindo nos últimos meses do nosso relacionamento e após o nosso término, tem surgido, bem devagar, em uma escalada gradual e muito dolorida, uma pessoa que eu tenho gostado tanto, sabe?

Eu tenho aprendido a olhar para mim. Olhar para meu corpo. Ouvir o que o meu corpo, os meus sentimentos tem dito para mim. Eu tenho aprendido a me aceitar e me amar da forma como eu sou. E eu sei que quando conseguir chegar lá em cima desse poço, não vai ter uma mulher iludida e cheia de crenças e padrões errados. Vai ter uma mulher forte, que reconhece seus problemas, suas dores, mas que cuida e ama elas também. E que vai estar pronta para receber muito amor de quem quer que chegue perto.

Vai ter uma mulher pronta para receber muito amor - aquele tanto de amor que ela achava que merecia -, porque agora ela vai, de fato, acreditar que merece tudo isso, porque ela, finalmente, se ama.

E você foi necessário para que isso acontecesse. Acho que constatar isso está me ajudando a curar a dor do nosso fim e está me fazendo entender que o nosso fim representou um recomeço, um novo caminhar - um caminhar que tem sido muito dolorido, mas que vai ser muito mais florido e belo lá na frente.

Uma das coisas que mais me doía era pensar que, não ficando contigo, estava perdendo a chance de viver um conto de fadas, da forma como eu sempre sonhei. O meu amor infantil não era o meu príncipe, afinal, não ficamos juntos. Isso me doía demais. 

Só que agora está ficando mais claro que eu vivi sim meu conto de fadas contigo, um conto de fadas cheio de ilusões, de esperanças, de falsas expectativas e de projeções. O que é, verdadeiramente, um conto de fadas, né?

Agora eu tenho deixado o conto de fadas e o castelo para trás. Trago resquícios dele comigo, afinal, tudo que vivi e sonhei faz parte dessa mulher que estou construindo também; mas de uma forma diferente. Está vindo de uma forma real agora.

Você pode ter sido meu príncipe, nós podemos ter tentado viver um conto de fadas e o fim - assim como nos contos de fadas -, não mostrou o que viria depois. Isso me mostrou que, talvez, meu sonho em viver um conto de fadas não tenha sido, nada mais, que uma ilusão que eu tenho quebrado. Eu quero saber o que vem depois do fim. Eu quero uma vida de verdade.

E eu estou construindo isso. E ter tido um príncipe, uma falsa ideia de castelo e o sonho de viver um contos de fada desmanchando foi necessário para que eu percebesse que, talvez, o que eu sempre quis, não passasse, no fundo, de uma ilusão.

Essa ilusão tem ficado para trás. Eu tenho escalado um novo caminho repleto de dúvidas, incertezas, com bem poucos sonhos, mas, ao menos, mais segura de que o meu futuro e a minha felicidade dependem exclusivamente de uma única pessoa: de mim mesma.

O castelo está ficando para trás, você tem ficado para trás, as dores também estão ficando menores e eu me vejo seguindo essa trilha incerta ainda sozinha. Não enxergo o que está lá na frente me esperando, o que vem a seguir ainda é uma incógnita, mas o que eu tenho deixado para trás está claro e eu sei que não quero voltar lá para resgatar. Eu quero seguir em frente. Vamos ver o que está me esperando.


terça-feira, 14 de abril de 2020

O renascer e o morrer

Hoje faz um ano que meu avô partiu dessa vida para outro plano e eu comecei a me questionar porquê celebramos a data de falecimento de alguém, mesmo que seja de uma forma saudosista. Uma das memórias que eu menos gostaria de me lembrar é justamente desse dia 14/04 do ano passado. Não queria voltar para aquele dia de forma alguma e, por mais que a saudade hoje se faça mais presente que naquele momento, eu estou muito melhor.

Mas comecei a me questionar porque, mesmo assim, relembramos essa data e dá um aperto no coração. Acho que ao menos para o falecimento do meu avô eu tenho a resposta. Com sua morte, aos poucos e de forma muito gradual, muita coisa foi morrendo dentro de mim também, sentimentos anteriormente escondidos ressurgiram muito mais fortemente, pessoas que eu amava demais foram saindo da minha vida e eu mesma morri de alguma forma também.

É até estranho escrever isso, mas a morte do meu avô provocou um renascimento em mim e é muito simbólico pensar que tudo isso aconteceu bem na época da Páscoa. Nada acontece por acaso e cada vez mais eu tenho certeza disso. A sua morte, meu querido avô, não foi por acaso e, de fato, aconteceu quando tinha que acontecer.

Mas foi tão difícil e, de certa forma, até hoje é muito difícil. Meu avô sempre foi um homem que não dependia de ninguém - ou ao menos ele pensava assim, um homem muito forte. Não tê-lo mais em nossas vidas me mostrou o quanto isso nos sustentava, mesmo que de forma inconsciente. Ele foi embora e eu vi, literalmente, um abismo na minha frente. Uma ex-psicóloga que, hoje em dia, é minha amiga, perguntou-me se eu não havia, de certa forma, vivenciado dois lutos com o falecimento do meu avô; um pela morte dele e o segundo pelo falecimento do meu pai, já que este eu perdi quando tinha apenas cinco anos.

Confesso que não soube responder na hora, mas, assim como ocorre com a terapia, essa pergunta tem martelado minha mente desde então e acho que eu consegui uma resposta. O abismo imensurável que se abriu a minha frente foi sim um luto composto, mas não só pela morte daqueles que tanto amei e que se foram, mas um luto também da segurança de que eu teria alguém cuidado de mim. O desejo de um pai protetor e amoroso que me protegeria de todas as mazelas sempre permeou minha vida, a figura de um avô firme, forte, mesmo que de forma distante, também esteve ao meu lado por 25 anos. E quando ele se foi, muita coisa se foi junto. Pessoas que eu pensei que seriam meu suporte, foram embora. Apoio que eu esperei receber, não recebi. 

Eu me senti sozinha como nunca havia me sentido na vida e isso foi muito dolorido. Ao mesmo tempo eu queria ser a fortaleza que meu avô foi a vida toda, tentei ser este sustentáculo para a minha família e acho que tudo isso só me ajudou a desmoronar mais ainda.

Mas em meio a todo esse caos, em meio a toda essa dor, eu encontrei a única pessoa que poderia me salvar verdadeiramente e a única pessoa que estaria comigo em qualquer situação: eu mesma. Fui buscando, dolorida e machucada, voltar o olhar para mim mesma e recebi uma oportunidade maravilhosa e divina de renascer. 

E o que seria a vida se não isso? A morte e o renascimento, não é mesmo? É dolorido constatar isso, mas meu querido e amado vô faleceu para que eu, sua querida e amada neta, encontrasse o que ela havia perdido. E como Deus é maravilhoso, sabe, meu querido Jura, porque eu tenho certeza que assim como ele não me abandonou, ele também não abandonou o senhor um minuto sequer.

E hoje, um ano após o início disso tudo, eu só quero comemorar essa oportunidade única e maravilhosa de ter vindo nesta vida como sua neta e poder ter sido utilizada como instrumento para esse renascimento de nós dois. O seu, no plano espiritual; e o meu, aqui na Terra.

Cada dia que passa, a saudade só aumenta, mas a certeza de que tudo isso foi para o nosso bem, também. E meu coração enche de alegria ao pensar que um dia nós nos reencontraremos, daremos um abraço bem forte, e eu poderei saber que todo esse sofrimento foi necessário para que estivéssemos onde estamos. O meu único desejo, enquanto sua neta, é que eu continue dando orgulho para o senhor como eu sei que dei durante toda a vida. Eu te amo muito, para sempre. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Memória de um biscoito...

Uma das coisas que mais me fazem lembrar de minha infância é o cheiro de biscoito de queijo assando no forno. Não por acaso, este é o meu biscoito favorito e o qual, com muito custo, consegui aprender a fazer, seguindo a receita da minha avó. 

Claro que ele jamais será igual ao dela, não tem mais o gosto da minha infância, não é no mesmo forno, não é na mesma casa, as pessoas que participavam daquele momento não estão mais aqui para sentir aquele cheiro juntamente comigo. 

Não é o sabor que nunca será igual - este está até bem parecido, sabe. Mas é a complexa reunião de sentimentos que estavam ali envolvidas que não existe mais e nem existirá.

Uma das partes essenciais de toda esta minha infância já se foi. O engraçado é que eu sempre achei que o biscoito de queijo remeteria apenas a minha avó, afinal, a receita é dela. Desde pequena quem eu vi amassando o polvilho, o queijo ralado, os ovos, foi ela - não ele.

Mas é ele, apenas ele, que não está mais aqui para que eu possa sentir aquele complexo emaranhado de sentimentos que eu sentia quando pequena.

Não era ele quem fazia, não era ele quem detinha a maestria da melhor receita de biscoito de queijo que existe. Ele era apenas um telespectador de toda aquela feitura, assim como eu. Ele, assim como eu, apenas se sentava à mesa e deliciava-se com aquele sabor incomparável. Ele era apenas mais um elemento ali, não?

Estou achando que não. Pior, estou sentindo isso dentro de mim. Ele se foi. Tão de repente. Não esperávamos, nem eu, nem minha avó, nem as futuras formas de biscoito de queijo.

Quando pedi para minha avó me ensinar a fazer meu biscoito favorito meu maior medo é que ela se fosse e levasse com ela esta receita primorosa. Eu gostaria de poder continuar fazendo, mantendo esta tradição, mantendo o biscoito de queijo da Dona Maria vivo em nossas famílias...

Só que não foi ela quem se foi, ela está aqui, a receita está aqui, a neta já sabe a receita e, mesmo assim, o biscoito não fica igual. E talvez nunca mais fique...

Aquele que era um mero coadjuvante desta minha memória infantil tornou-se a estrela principal. Aquele que sequer ralava o queijo para que o biscoito pudesse ser feito, agora é o que mais importa em todo este ritual e ele não está mais aqui.

Que saudade, meu querido avô. 


segunda-feira, 16 de março de 2020

Fim ou permanência?


Inicialmente, a ideia era te mandar uma mensagem e te perguntar se você podia falar comigo hoje a noite. Mas aí vieram as mesmas dúvidas na minha cabeça, por que essa necessidade de falar com você? Aliás, por que essa necessidade de falar com alguém? E, para completar, por que essa dificuldade de encarar um fim?

Por que não deixar simplesmente que as coisas possam ir embora e, finalmente, terminarem? Não há beleza no fim, parece. O início é, normalmente, tão lindo. A vivência é mais gostosa ainda. Mas o fim. Ah, o fim. O que tem depois do fim? Parece que não há nada depois do fim.

Se nós somos seres eternos, as coisas não deveriam ter fim, deveriam? Eu não queria viver fins, eu queria viver apenas a continuação das coisas. O dia a dia. O continuar, o manter, a permanência. O deixar alguém ir embora dói demais, machuca por dentro, dilacera.

Não fui feita para o fim. Eu fui feita para viver. Dizem que o fim também faz parte do processo, também faz parte da vida... Mas eu não consigo acreditar nisso. Parece que se chegou ao fim é porque nada existiu, é como se tudo tivesse sido mentira, um sonho, não uma realidade.

Por mais que racionalmente e até por questão de saúde física e emocional eu compreenda que, por vezes, fins são mais que necessários, no fundo, eu não queria viver o fim de nada. Nem gostaria de ter que ver o fim de algo, de presenciar o fim para as pessoas.

Não vejo beleza na ideia de que um fim reabre portas para novas vivências, novas oportunidades. O bonito da vida, para mim, não é uma nova chance, mas sim a permanência. É o ficar, é o fazer de tudo para que não haja um fim.

Não adianta eu tentar compreender que as coisas possuem começo, meio e fim, se, verdadeiramente, eu não acredito nisso. Para mim o fim é uma anulação do que já se passou. É como dizer que tudo aquilo que existiu, na verdade, não existiu. Afinal, se tivesse existido mesmo, como pareceu, não teria acabado, né?

Daí todos os filósofos, escritores, poetas, estudiosos do comportamento humano buscam mostrar a beleza da relatividade da vida. Aliás, eu mesma acho tão lindo um texto ou livro que mostre como as opiniões podem ser bastante distintas para uma mesma situação. Na teoria, eu acredito na relatividade dos sentimentos e de como tudo é fluido.

Porém, internamente, eu não creio nisso. Eu acredito no permanecer. Como será que alguém poderia permanecer se houve um fim? Será que há continuidade e permanência mesmo após um fim?

A ideia do “para sempre” nos foi vendida desde sempre, o que é até paradoxal. O sempre ser vendido desde sempre. Ai ai. Mas foi, isso é um fato. Só que acredito que algumas pessoas não tenham comprado, de fato, a ideia do “para sempre”. Eu comprei. Eu acredito nisso, por mais infantil e imaturo que possa parecer.

Eu acredito que as coisas podem e, na verdade, deveriam ser para sempre. Um amor deveria ser para sempre. Como duas pessoas podem ter se amado tanto e planejado tanto juntas e simplesmente deixam isso acabar? Deixam isso não existir mais? Será que ninguém mais acha que isso é como anular tudo que foi vivido?

Se há relatividade na vida, porque essa relatividade não poderia existir dentro do próprio relacionamento? Por que as partes envolvidas não se permitem recriar ali dentro para gerar permanência e garantir o para sempre? É mais fácil ir embora? Desistir a permanecer?

Talvez venha daí minha força e desejo insano de permanência, porque, na realidade, o bonito, para mim, é a permanência. É o fazer de tudo para dar certo. É desejar, mais que tudo, que as coisas não se acabem, porque, se acabarem, é como se não tivessem existido e se elas não existiram, tudo não passou de uma ilusão e dói muito acreditar que tudo foi uma mentira.

Mas eu sei, eu sei que não é assim. Só que é isso que eu sinto. E como eu mudo isso? Não basta eu entender que não é assim que funciona se é assim que eu sinto. Eu não sou assim, poxa. Eu sempre busco a permanência. O estar junto e fazer valer aquele desejo de “para sempre”. É mentira eu dizer que acho bonito o que Vinicius escreveu ao dizer “que seja eterno enquanto dure”. Eu não acredito nisso. Se é, de fato, eterno, vai durar para sempre. Fim. Não tem relatividade nisso para mim.

O problema, creio eu, é que apesar de achar que sou uma das poucas pessoas que encaram as coisas dessa forma, eu também acho, mesmo que sentindo isso, que estou errada. Racionalmente eu sei que um fim não anula tudo que foi vivido. Afinal, se anulasse, não haveria passado. Mas eu não acredito nisso ou não queria isso para mim – apesar de saber que é inevitável.

Daí isso me faz buscar permanecer onde não deveria mais estar. Isso faz com que eu extrapole os meus limites, não me respeite para, acima de tudo, garantir a permanência – porque, como já escrevi, o bonito para mim é a permanência.

Ok, vamos ressignificar isso então, que aí resolvemos o problema. Mas e se eu não quiser ressignificar isso, poxa? Qual o problema em achar bonito a permanência? Em achar bonito alguém que escolheu ficar e fez de tudo por isso? Eu não vejo isso como um problema.

Problema eu vejo é no fim. No começar do zero. Ter que se esquecer de todo um passado, de toda uma vida que se planejou e ter que começar, novamente, tudo de novo. Qual a beleza nisso, meu Deus?

Para mim todos estão ficando loucos. A fluidez na qual a minha geração vive não me faz com que eu me sinta parte dela. Parafraseando os evangélicos do “eu escolhi esperar”, eu faço time dos “eu escolhi ficar”. Só que me sinto que sozinha neste time. Porque não basta escolher ficar, mas sim buscar mudar e melhorar, juntos, para que o fim não seja a única solução possível.

Eu sempre achei que o mais difícil era encontrar alguém que eu amasse e que a pessoa me amasse de volta, que, se tivéssemos isso, todo o resto conseguiríamos resolver. E não é assim. Só que eu não aceito que não seja assim. E cá estou eu, mais uma vez, querendo pegar o planeta com as mãos e ditar como as coisas devem ser. Genial. Parabéns.

Isso de terapia, de buscar desconstruir tudo que você foi construindo e acreditando não é nada engraçado. Tem horas que penso se não seria mais fácil só fingir que nada disso existe e seguir a vida. Quanta gente não está aí só vivendo e pronto?

Um cara me disse que eu “problematizo” demais as coisas, que eu não tenho tanto problema quanto quero passar que tenho, que eu aumento as coisas, sendo que não é tudo isso. Será? No fundo, eu acho que, na realidade, estamos todos problemáticos, a diferença é que uns já viram isso e outros ainda estão na ignorância.

De fato a tal da ignorância é uma benção.

Tem horas que acho que toda essas reflexões que estou fazendo, na verdade, não vão me levar a lugar algum. Não que eu estivesse muito bem antes de fazê-las. Na verdade, estava bem mal. Mas estou mal agora também. Então qual a graça? Antes eu sofria, mas eu não achava que era tão grave assim, na verdade. Agora eu sofro, sei que é grave, sei que só eu consigo solucionar tudo e não consigo. Ainda. Mas também não sei se vou conseguir algum dia.

Chego a pensar, às vezes, de uma forma bem egocêntrica, que se, caso eu melhore e fique uma pessoa “curada”, daí serei só eu “curada” no meio de um monte de gente perdida e sem solução. E aí? O que farei? Ficarei curada e sozinha. Será que não era melhor ficar doente com alguém doente também, mesmo que ambos não soubessem que estão doentes?

Esse tal de autoconhecimento é uma merda. É muito difícil, não tem graça, você conclui que está mais sozinho que nunca, afinal só você mesmo pode se autoconhecer e não tem ninguém que pode te ajudar nessa caminhada. E aí enquanto você busca isso, você fica totalmente ferido, não quer lidar com as coisas, mas simplesmente precisa lidar, porque elas ficam explodindo na sua cara. Porra, que merda.

Mas, voltando ao tema inicial, eu que odeio tanto os fins, será que todo esse encontro comigo mesma e com tudo que me machuca e que está errado dentro de mim vai ter um fim? E vai, finalmente, me proporcionar um novo começo? Olha, se isso acontecer, acho que, pela primeira vez na vida, vou gostar de um fim e achar interessante um novo começo. E aí, quem sabe, eu encontre um lugar que, finalmente, eu possa permanecer, sem que me machuque.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Foi mágico?

"Tô louco pra te pertencer/E ver a nossa história acontecer/Eu sei o tempo vai passar/E a cada dia eu vou te merecer/Meu coração foi feito pra você..."

Por que eu ainda estou conectada a alguém que pouco viveu comigo? Alguém que eu pouco sei, que em menos de um mês conseguiu ter uma atitude assustadora, mas que, mesmo assim, parece ter algo que me puxa.

Fico me perguntando se não é uma tentativa de autossabotamento. Ou talvez uma vontade imensurável de acreditar que o que pareceu um sonho no início pudesse ser real.

Por que essa vontade de viver o sonho? De ter algo acima da média? De sentir borboletas na barriga e ficar com os olhos brilhando e se apaixonar? Por quê? Se depois isso tudo só dói, porque a ficha cai e você constata que tudo não passou de uma ilusão?

Acho que é isso que me prende, esse desejo de que o que sonhei, o que pareceu ser no início fosse, de fato, realidade. Daí é mais fácil acreditar que tudo aquilo foi verdade e que o que nos afastou que foi uma exceção, apenas um vacilo; do que acreditar que o começo foi uma ilusão e o que nos afastou é realmente a realidade.

Mas é que ele parecia tão tudo que eu sempre quis. Nosso primeiro encontro foi tão bom, tão mágico, tão especial que nem primeiro encontro parecia. Ele era tão carinhoso, tão fofo, tão meigo. Eu via meu sorriso dentro dos seus olhos. Ele sorria com os olhos. Foi mágico, isso eu tenho certeza que foi, eu vivi. 

O beijo dele era tão doce, tão delicado, mas ao mesmo tempo tão firme, tão profundo. A boca dele era tão gostosa, é como se ela tivesse um imã que fizesse com que eu desejasse ficar apenas ali.

E o sorriso dele? Eu já escrevi sobre, né? Mas é que eu não consigo me esquecer. Ele sorria com a boca, mas resplandecia por todo o rosto, pelas bochechas, pelos olhos. Os olhos dele ficavam pequenininhos. Ele sorria com toda sua face. É uma das coisas mais gostosas que eu já vi na vida, principalmente porque era eu quem estava fazendo com que ele sorrisse daquela forma.

Ele ia contando sobre sua vida, sobre o que já viveu, sobre o que fez, mesmo sendo tão novo, e eu apenas ia me encantando cada vez mais. Nunca tinha conhecido alguém por quem me encantasse tanto assim de cara. E não é só pelo que ele já fez, mas porque ele não contava isso como se estivesse se exibindo ou querendo mostrar que era foda. Não, era de uma forma tão natural. Parecia até que nem ele tinha noção do quanto ele era incrível. Eu fui ficando boba vendo ele ali, na minha frente, compartilhando tudo aquilo. E quando ele completava alguma história e dava aquele sorriso, ah, aí eu começava a ficar preocupada de que talvez quisesse ver aquele sorriso mais muitas e muitas vezes.

Mas ele não apenas contava, ele queria me ouvir também, queria saber sobre mim. Isso foi ainda mais inédito na minha vida. Alguém que compartilhasse fatos sobre si e, ainda, quisesse de fato me ouvir. E ele realmente me ouvia. De uma forma tão complacente, tão atenta.

Foi um encantamento mútuo, eu o vi se encantando por mim e eu estava da mesma forma. Foi mágico, isso eu tenho certeza. Já escrevi isso, né?

Já escrevi que ele ficava com as bochechas vermelhas quando ficava sem graça? Era a coisa mais fofa. Parece que não condizia com ele aquele jeito de menino com tudo que ele estava me contando que ele já havia feito. Eu não conseguia entender como aquele garoto na minha frente, de apenas 28 anos, já tinha feito tanta coisa e ainda era um garoto, tão meigo, fofo, gentil.

Só que não foi esse mesmo garoto que eu vi no dia 12 de fevereiro. Muito ao contrário, eu vi alguém totalmente oposto a tudo isso. Alguém que me deu medo, que disse coisas tão horríveis que até hoje fico sem acreditar que foi o mesmo garoto que conheci que me disse aquelas coisas...

O que será que aconteceu? Quem de fato será a pessoa que conheci? É possível que alguém consiga se transformar tanto assim? E por que, mesmo tento visto este lado tenebroso, que me disse coisas horríveis, que me magoou, que me assustou, eu ainda quero acreditar que aquele não foi ele? Que aquilo foi apenas um deslize e que o verdadeiro foi quem eu conheci pessoalmente?

Ao escrever, só consigo pensar que é muita falta de amor próprio e até um desejo insano, parece, de querer comprovar que não, ele não é aquilo. Deixa eu ir lá salvá-lo, porque ao meu lado ao menos eu vi um rapaz muito diferente do que ele se mostrou no último dia. Eu devo ser mesmo a Mulher Maravilha, capaz de transformá-lo no melhor que ele pode ser - que foi o que ele foi ao meu lado. Ele precisa de mim para ser seu melhor. E eu, parece, sigo achando que preciso dele para me sentir especial.

Mas espera aí, não foi o mesmo rapaz que a fez se sentir tão especial que em menos de um mês conseguiu fazer com que você se sentisse totalmente o contrário de especial? Que destruiu o seu projeto social, dizendo que tudo que você tem feito - da forma como está fazendo, não resolve nada. Que é por causa de pessoas como você que nosso país está como está. Que de simples e humilde nada teve, ao contrário, te colocou em uma posição de inferioridade, fazendo com que, no primeiro momento, você começasse a se justificar para ele, como se tivesse que provar que você não era alienada como ele quis dizer que você fosse.

Isso tudo aconteceu em menos de 1 mês que vocês se conheciam. 1 mês.

Querida, sério, ame-se mais. Por que ficar presa a isso? É esse cara que você acha realmente que você merece ao seu lado? Só porque vocês viveram momentos maravilhosos no início? Por que pareceu um sonho? Mas depois você viveu um pesadelo também?

Ok, pode mesmo ter sido um deslize dele, talvez, realmente, ele não seja esse monstro que pareceu ser no último dia, mas você viu isso. Ele foi assim contigo. Alguém que, em teoria, ele ainda deveria estar conquistando. Será mesmo que alguém que já é assim logo no início tem tanto a te ofertar de melhor daqui para frente?

Não é você quem tem que buscar que o outro te oferte o melhor. Você deve buscar ofertar o seu melhor e o outro buscar ofertar o melhor dele. E assim sigam juntos, até onde der.

Em menos de UM MÊS ele já mostrou o pior dele para você. É sério que você ainda está querendo resgatar algo ali? Oh meu Deus, como eu queria que o mesmo cérebro que consegue articular todo esse texto fosse responsável por guiar os sentimentos dessa moça que aqui escreve para que ela deixasse de se apegar a sentimentos tão errados.

PARA DE ACHAR QUE ALGUÉM VAI MUDAR POR VOCÊ OU QUE VOCÊ VÁ MUDAR ALGUÉM. 

Aliás, você TEM que mudar alguém mesmo. E esse alguém é você mesma. Começando pelo auto-amor. Pelo auto-cuidado. Por parar de se sabotar.

Que tenham sido alguns dias mágicos, que lindo, parabéns, você terá boas memórias para se recordar. Boas memórias para lhe inspirarem a escrever mais. Para vislumbrar o que você deseja e o que pode ser que você consiga encontrar por aí.

Mas não é porque você viveu algo extremamente mágico que você deve se ver presa a isso e achar que aquele momento mágico vale mais que qualquer coisa. Não vale. Da mesma forma que tiveram momentos mágicos, teve um momento terrível.

Você terminou um relacionamento com alguém que, em teoria, sempre te quis. E o que ele te disse? Não deixe que ninguém faça com que você se sinta algo menos que extraordinária. Parabéns, você fez muito bem em terminar mesmo, porque a última coisa que você estava se sentindo ao lado dele era extraordinária.

Daí você conhece alguém que, em um primeiro momento, realmente parece ser totalmente oposto a isso. Alguém que provocou borboletas no seu estômago, que te deixou com cara de boba apaixonada. Isso é incrível? Delicioso? Mágico? É. Mas não é só isso que basta. 

Apegue-se aos bons momentos como referencial do que você almeja, mas não como se você só pudesse vivenciar tudo aquilo ao lado daquela pessoa. Você também viveu momentos mágicos com outros rapazes já e nem por isso foram eles com que você está até hoje.

Pare de querer encontrar o último, pare de querer buscar um príncipe que chegue tampando todos os buracos que têm na sua vida. ISSO NÃO EXISTE.

Só você vai tampar tudo isso aí. Contente-se em conhecer as pessoas. Em viver cada dia como se fosse o único e o que aconteceu ali. Foi bom? Que ótimo. Siga. Deixou de ser bom? Siga também, mas para longe.

Você só deve permanecer onde você se sinta bem, amada, respeitada. Se isso deixou de acontecer, não insista mais não. Você já insistiu demais onde não lhe cabia. Não é com esse que vai ser diferente. Vai ser diferente quando você não precisar insistir para ficar, apenas será prazeroso ficar e você permanecerá.

Absorva isso, sentimentos, o lado racional do seu cérebro agradece.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Chega.

Racionalmente está mais que claro que este cara é mais um doido que apareceu na minha vida. O surto que ele teve comigo ontem ao telefone, todas as atrocidades que ouvi. Hoje ele tentando se justificar com problemas sérios pelos quais têm passado, como se isso justificasse o que ele me disse.

Nada justifica. Não nos conhecemos nem há um mês e já tivemos uma situação complicada assim. Com ele confessando, inclusive, que como recurso de defesa sabe dizer exatamente o que precisa dizer para ofender alguém.

Só por esses fatos resumidamente apresentados já deveria ser mais que óbvio que eu deveria cortar contato com esse cara e não querer mais sequer ter notícias dele, não?

Não. Parece que tem algo que me puxa, me prende, me arrasta para o problema. Parece até um desejo animal de manter esta pessoa em minha vida, como forma de salvá-la? Transformá-la em algo melhor? Começo a justificar os erros dele, como se ele fosse um coitado que merecesse dó.

E eu? Quem vai cuidar de mim? Porque está claro que um cara desses está fazendo tudo menos cuidando de mim, não? Daí eu fico ainda buscando cuidar dele? Fico com medo de perder algo que não temos? Perder algo que eu acreditei que pudesse ser, mas os sinais logo de cara já mostraram que seria problema e mesmo assim tem algo que me puxa para dentro disso? Por quê?

É uma vontade gigante de não estar errada, de mesmo terminando não ficar com o peso da culpa, de que eu errei me afastando dele. Que eu errei não aceitando voltar com meu namorado que me procurou pedindo mais uma chance. Medo de fracassar e não encontrar alguém.

O mais engraçado é que contando para esse de agora que o meu ex abusador me procurou e eu não compreendia porque as pessoas insistem em procurar as outras mesmo sabendo que não a queremos mais, a resposta dele foi boa: "É arrependimento de ter perdido alguém como você por bobeira."

E o que ele está fazendo agora? Aliás, o que todos caras que já passaram pela minha vida fizeram? Todos me perderam? Por quê?

Se eu sou tão extraordinária assim como eles dizem que sou, por que eles não fazem de tudo para me manterem ao lado deles enquanto eu estou lá querendo isso? Eu não compreendo.

Talvez venha daí também toda esta carência e uma necessidade voraz de me sentir especial e a "escolhida" de alguém. Que diabo escolhida, até quando isso? Já não analisamos e concluímos que agora é você quem vai escolher?

E você vai escolher alguém que em menos de um mês explodiu contigo, te disse coisas terríveis e te diminuiu? Alguém que, como forma de se justificar, buscou se vitimizar e se colocar numa posição de vulnerabilidade, para que você entendesse essa explosão dele? Manter tudo isso por quê? Só porque vocês tiveram encontros em que você se sentiu muito especial?

Isso compensa, de verdade? Subir uma escada gigante, sentir-se a pessoa mais especial do mundo para depois despencar dela? Será que não passou da hora de você subir nessa escada sozinha e ter consciência de tudo que você é sem depender de que alguém te diga isso?

Já pensou ouvir que você é extraordinária da boca de alguém e de fato acreditar nisso? O poder que isso poderá te dar? Porque aí não será alguém quem te fez  se sentir especial. Você já saberá isso. Terá consciência disso. A pessoa ali só estará constatando algo que você já sabe.

Pensa o quanto isso será libertador. Não existirão mais aqueles encontros de conto de fadas, em que chega um pseudo príncipe e te faz ficar nas nuvens, pois, finalmente, alguém te viu como uma princesa. CHEGA, CARALHO.

Comece a se enxergar como alguém extraordinária. Fenomenal. Incrível. Você é isso. Não aceite migalhas, abusos, desaforos para ficar ao lado de alguém que diz ver que você é tudo isso. Não dependa de aprovações externas, de constantes elogios, de bajulações para saber exatamente quem você é. Isso só você conseguirá saber exatamente.

Vamos buscar saber e fortalecer isso?

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O fim da busca incessante

"Meu foco nunca foi encontrar um grande amor, ter um homem ao meu lado. Não sei nem quando e como incorporei isso na minha vida."

Estas foram as palavras que disse para minha mãe hoje após nosso jantar. A única mentira aí é que sim, eu sei sim quando comecei isso e incorporei isso na minha vida, quando ela iniciou a busca dela e eu comecei a achar que também precisava achar alguém, encontrar um parceiro, um companheiro e isso se tornou o foco número um na minha vida.

Parece que foi a partir daí, inclusive, que minha vida começou a desandar e tomar rumos que eu não queria e também não havia planejado para mim.

Poxa, eu sempre fui a garota nerd da escola. Eu era quem queria passar em uma universidade pública, tirar boas notas, ter uma carreira de sucesso, ter dinheiro, status, fama. Apesar de ter lido livros de princesas e romances a minha vida toda e, no fundo, almejar isso, eu não tinha isso como foco, sabe?

Eu me apaixonava, obviamente planejava toda uma vida ao lado da pessoa, mas não era um desejo insano de ter alguém. Era algo que queria - principalmente se fosse semelhante a um conto de fadas, mas eu não vivia buscando isso.

Daí hoje, refletindo sobre minha vida em voz alta com minha mãe, notei que meio que desde a metade da minha faculdade o "ter alguém" tornou-se um foco na minha vida. E, o pior, parece que virou o foco número um. Parece que desde então eu sempre estou conversando com alguém, sempre estou conhecendo alguém, sempre estou querendo ser a "escolhida" de alguém, sempre estou querendo namorar alguém.

SOCORRO.

E eu? Onde que eu fiquei nesta história? Meu Deus, cadê a menina que devorava livros? A menina que criava, inventava, sonhava? Parece que ela sumiu e deu lugar a uma desesperada buscando incessantemente alguém.

Isso não é meu. Esta busca não é minha. Talvez até venha a ser algum dia, não sei, mas parece que ficou tão claro agora na minha cabeça que isso não é meu. O discurso da minha mãe de que "todos têm alguém", que "ficar sozinha é muito ruim" penetrou na minha vida de uma forma que parece que eu fui absorvendo isso de uma forma que, de repente, este discurso passou a ser perpetrado por mim também.

Mas, espera aí, quando foi que eu, euzinha, passei a achar isso? Eu realmente quero como foco na minha vida um homem ao meu lado? Eu tenho esse sonho todo de casar, ter um marido?

Eu sempre gostei de ficar sozinha. Aliás, eu fico bem sozinha. Gosto da minha companhia. Comecei a ter esse sentimento de solidão muito mais quando estava acompanhada por alguns caras do que quando estou sozinha. Parece que essa busca desenfreada por ter alguém me faz sentir muito mais sozinha e abandonada do que o não buscar ninguém.

Por que eu tenho que sempre estar conhecendo alguém? Planejando a vida com alguém? Como eu consegui me perder tanto assim na minha própria vida, meu Deus?

Eu estou com ódio de mim agora. Estou há mais de quatro anos buscando, buscando, buscando alguém, sendo que deixei de buscar a única coisa que verdadeiramente eu sempre quis. Que EU sempre quis: me encontrar em algo que gostasse de fazer.

Minha vida foi virando um emaranhando de "deixa a vida me levar" e eu fui indo. Daí engatava um romance com um cara e já planejava minha vida com aquele cara, planos adaptados para dar certo com ele. Terminava, sofria horrores, mas aí a saga já continuava de novo, para encontrar outro e tentar, novamente, me encaixar na vida daquele cara. Por que isso? Meu Deus, estou me sentindo tão idiota neste momento.

Eu quero e preciso tomar as rédeas da minha vida. O que eu quero para minha vida, independente de família, de um amor, de amigos, de qualquer pessoa, o que EU quero? Eu preciso estabelecer isso e buscar, se não viverei toda uma vida sendo guiada pelo fluxo e pelo que parece que tem que ser.

As coisas não precisam parecer que tem que ser. As coisas são e eu preciso defini-las. Só eu consigo mudar a minha vida e fazer algo por mim. Utilizando o  famoso bordão da atualidade, as outras pessoas que lutem para se encaixar na minha vida daqui para frente, pois eu estarei muito ocupada tomando as rédeas da minha vida para me ocupar em encaixar alguém no meu espaço. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Quem sabe...

Dizem que para um sonho deixar de ser sonho, ele precisa começar a ser executado, então lá vou eu.

Certo dia, em uma brincadeira de perguntas e respostas com meu ex-namorado, perguntei o que ele preferiria: o sucesso profissional fazendo o que ele mais sonhava - no caso dele, ser jogador de futebol -, ou ter ao seu lado o grande amor de sua vida. O único problema é que não daria para se ter os dois, escolhendo uma das opções, você teria a certeza de que não alcançaria a outra opção.

Sim, eu adoro perguntas difíceis. 

Bem, ele respondeu que, se fosse em outro tempo, responderia que seria alcançar o grande sonho dele de ser jogador de futebol, mas estando ao meu lado, preferiria poder viver esse grande amor ao meu lado. Talvez aqui ele tenha sido sincero, talvez não, nunca saberei. Acabamos. Sinto que viver um grande amor ao meu lado não será possível.

Enfim, mas eu sei o que cabe a mim e a minha resposta foi que seria me realizar profissionalmente com o meu maior sonho. Sim, posso ter sido sem coração, ainda mais que respondi isso depois dele ter dito que preferia ficar ao meu lado.

Mas o mais engraçado de tudo é que, mesmo respondendo isso, eu acho que eu era quem mais, de fato, lutei para estar ao lado dele - mesmo sem ser meu maior sonho. O que é extremamente irônico, aliás.

Meu maior sonho profissional é viver da escrita. É que minhas palavras possam tocar o coração de outras pessoas como tantas vezes eu fui tocada por palavras de escritores. É conseguir fazer com que essa bagunça que vive dentro de cada ser humano seja transcrita em palavras e provoque identificação. É fazer com que alguém sonhe, sorria, chore lendo o que eu escrevi.

Nossa, só de imaginar que algum dia alguém possa estar sentado lendo um livro que eu escrevi, parece que, ao menos por um segundo, eu me esqueço de todos os demais sonhos.

Mas querem saber o que é contraditório? 

Mesmo este sendo meu maior sonho - e eu tenho consciência dele, não faço nada para que ele se torne realidade. Estou escrevendo? Estou colocando toda esta bagunça mental em palavras? Não...

Passei os últimos anos da minha vida trabalhando com o que não gosto, buscando um grande amor, traçando planos e mais planos com pessoas que não estão mais ao meu lado. Que engraçada a vida.

Quero acreditar que talvez todos estes anos tenham sido, na verdade, bagagem para que eu tivesse o que escrever daqui para frente. Assim espero.

E, quem sabe, daqui uns anos, esteja eu sentada novamente ao lado de um companheiro e faça a mesma pergunta, porém talvez possa dizer que o meu maior sonho eu já realizei, sendo, de fato, uma escritora.

Quem sabe.