Inicialmente,
a ideia era te mandar uma mensagem e te perguntar se você podia falar comigo
hoje a noite. Mas aí vieram as mesmas dúvidas na minha cabeça, por que essa
necessidade de falar com você? Aliás, por que essa necessidade de falar com
alguém? E, para completar, por que essa dificuldade de encarar um fim?
Por
que não deixar simplesmente que as coisas possam ir embora e, finalmente,
terminarem? Não há beleza no fim, parece. O início é, normalmente, tão lindo. A
vivência é mais gostosa ainda. Mas o fim. Ah, o fim. O que tem depois do fim?
Parece que não há nada depois do fim.
Se
nós somos seres eternos, as coisas não deveriam ter fim, deveriam? Eu não
queria viver fins, eu queria viver apenas a continuação das coisas. O dia a
dia. O continuar, o manter, a permanência. O deixar alguém ir embora dói
demais, machuca por dentro, dilacera.
Não
fui feita para o fim. Eu fui feita para viver. Dizem que o fim também faz parte
do processo, também faz parte da vida... Mas eu não consigo acreditar nisso.
Parece que se chegou ao fim é porque nada existiu, é como se tudo tivesse sido
mentira, um sonho, não uma realidade.
Por
mais que racionalmente e até por questão de saúde física e emocional eu
compreenda que, por vezes, fins são mais que necessários, no fundo, eu não
queria viver o fim de nada. Nem gostaria de ter que ver o fim de algo, de
presenciar o fim para as pessoas.
Não
vejo beleza na ideia de que um fim reabre portas para novas vivências, novas
oportunidades. O bonito da vida, para mim, não é uma nova chance, mas sim a
permanência. É o ficar, é o fazer de tudo para que não haja um fim.
Não
adianta eu tentar compreender que as coisas possuem começo, meio e fim, se,
verdadeiramente, eu não acredito nisso. Para mim o fim é uma anulação do que já
se passou. É como dizer que tudo aquilo que existiu, na verdade, não existiu.
Afinal, se tivesse existido mesmo, como pareceu, não teria acabado, né?
Daí
todos os filósofos, escritores, poetas, estudiosos do comportamento humano
buscam mostrar a beleza da relatividade da vida. Aliás, eu mesma acho tão lindo
um texto ou livro que mostre como as opiniões podem ser bastante distintas para
uma mesma situação. Na teoria, eu acredito na relatividade dos
sentimentos e de como tudo é fluido.
Porém,
internamente, eu não creio nisso. Eu acredito no permanecer. Como será que
alguém poderia permanecer se houve um fim? Será que há continuidade e
permanência mesmo após um fim?
A
ideia do “para sempre” nos foi vendida desde sempre, o que é até paradoxal. O
sempre ser vendido desde sempre. Ai ai. Mas foi, isso é um fato. Só que
acredito que algumas pessoas não tenham comprado, de fato, a ideia do “para
sempre”. Eu comprei. Eu acredito nisso, por mais infantil e imaturo que possa
parecer.
Eu
acredito que as coisas podem e, na verdade, deveriam ser para sempre. Um amor
deveria ser para sempre. Como duas pessoas podem ter se amado tanto e planejado
tanto juntas e simplesmente deixam isso acabar? Deixam isso não existir
mais? Será que ninguém mais acha que isso é como anular tudo que foi vivido?
Se
há relatividade na vida, porque essa relatividade não poderia existir dentro do
próprio relacionamento? Por que as partes envolvidas não se permitem recriar
ali dentro para gerar permanência e garantir o para sempre? É mais fácil ir
embora? Desistir a permanecer?
Talvez
venha daí minha força e desejo insano de permanência, porque, na realidade, o
bonito, para mim, é a permanência. É o fazer de tudo para dar certo. É desejar,
mais que tudo, que as coisas não se acabem, porque, se acabarem, é como se não
tivessem existido e se elas não existiram, tudo não passou de uma ilusão e dói
muito acreditar que tudo foi uma mentira.
Mas
eu sei, eu sei que não é assim. Só que é isso que eu sinto. E como eu mudo
isso? Não basta eu entender que não é assim que funciona se é assim que eu
sinto. Eu não sou assim, poxa. Eu sempre busco a permanência. O estar junto e
fazer valer aquele desejo de “para sempre”. É mentira eu dizer que acho bonito o
que Vinicius escreveu ao dizer “que seja eterno enquanto dure”. Eu não acredito
nisso. Se é, de fato, eterno, vai durar para sempre. Fim. Não tem relatividade
nisso para mim.
O
problema, creio eu, é que apesar de achar que sou uma das poucas pessoas que
encaram as coisas dessa forma, eu também acho, mesmo que sentindo isso, que estou
errada. Racionalmente
eu sei que um fim não anula tudo que foi vivido. Afinal, se anulasse, não
haveria passado. Mas eu não acredito nisso ou não queria isso para mim – apesar
de saber que é inevitável.
Daí
isso me faz buscar permanecer onde não deveria mais estar. Isso faz com que eu
extrapole os meus limites, não me respeite para, acima de tudo, garantir a
permanência – porque, como já escrevi, o bonito para mim é a permanência.
Ok,
vamos ressignificar isso então, que aí resolvemos o problema. Mas e se eu não
quiser ressignificar isso, poxa? Qual o problema em achar bonito a permanência?
Em achar bonito alguém que escolheu ficar e fez de tudo por isso? Eu não vejo
isso como um problema.
Problema
eu vejo é no fim. No começar do zero. Ter que se esquecer de todo um passado,
de toda uma vida que se planejou e ter que começar, novamente, tudo de novo.
Qual a beleza nisso, meu Deus?
Para
mim todos estão ficando loucos. A fluidez na qual a minha geração vive não me
faz com que eu me sinta parte dela. Parafraseando os evangélicos do “eu escolhi esperar”, eu
faço time dos “eu escolhi ficar”. Só que me sinto que sozinha neste time.
Porque não basta escolher ficar, mas sim buscar mudar e melhorar, juntos, para
que o fim não seja a única solução possível.
Eu
sempre achei que o mais difícil era encontrar alguém que eu amasse e que a
pessoa me amasse de volta, que, se tivéssemos isso, todo o resto conseguiríamos
resolver. E não é assim. Só que eu não aceito que não seja assim. E cá estou
eu, mais uma vez, querendo pegar o planeta com as mãos e ditar como as coisas
devem ser. Genial. Parabéns.
Isso
de terapia, de buscar desconstruir tudo que você foi construindo e acreditando
não é nada engraçado. Tem horas que penso se não seria mais fácil só fingir que
nada disso existe e seguir a vida. Quanta gente não está aí só vivendo e
pronto?
Um
cara me disse que eu “problematizo” demais as coisas, que eu não tenho tanto
problema quanto quero passar que tenho, que eu aumento as coisas, sendo que não
é tudo isso. Será? No fundo, eu acho que, na realidade, estamos todos
problemáticos, a diferença é que uns já viram isso e outros ainda estão na
ignorância.
De
fato a tal da ignorância é uma benção.
Tem
horas que acho que toda essas reflexões que estou fazendo, na verdade, não vão
me levar a lugar algum. Não que eu estivesse muito bem antes de fazê-las. Na
verdade, estava bem mal. Mas estou mal agora também. Então qual a graça? Antes
eu sofria, mas eu não achava que era tão grave assim, na verdade. Agora eu
sofro, sei que é grave, sei que só eu consigo solucionar tudo e não consigo.
Ainda. Mas também não sei se vou conseguir algum dia.
Chego
a pensar, às vezes, de uma forma bem egocêntrica, que se, caso eu melhore e
fique uma pessoa “curada”, daí serei só eu “curada” no meio de um monte de
gente perdida e sem solução. E aí? O que farei? Ficarei curada e sozinha. Será
que não era melhor ficar doente com alguém doente também, mesmo que ambos não
soubessem que estão doentes?
Esse
tal de autoconhecimento é uma merda. É muito difícil, não tem graça, você
conclui que está mais sozinho que nunca, afinal só você mesmo pode se
autoconhecer e não tem ninguém que pode te ajudar nessa caminhada. E aí
enquanto você busca isso, você fica totalmente ferido, não quer lidar com as
coisas, mas simplesmente precisa lidar, porque elas ficam explodindo na sua
cara. Porra, que merda.
Mas,
voltando ao tema inicial, eu que odeio tanto os fins, será que todo esse
encontro comigo mesma e com tudo que me machuca e que está errado dentro de mim
vai ter um fim? E vai, finalmente, me proporcionar um novo começo? Olha, se
isso acontecer, acho que, pela primeira vez na vida, vou gostar de um fim e
achar interessante um novo começo. E aí, quem sabe, eu encontre um lugar que,
finalmente, eu possa permanecer, sem que me machuque.
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