sexta-feira, 27 de março de 2020

Memória de um biscoito...

Uma das coisas que mais me fazem lembrar de minha infância é o cheiro de biscoito de queijo assando no forno. Não por acaso, este é o meu biscoito favorito e o qual, com muito custo, consegui aprender a fazer, seguindo a receita da minha avó. 

Claro que ele jamais será igual ao dela, não tem mais o gosto da minha infância, não é no mesmo forno, não é na mesma casa, as pessoas que participavam daquele momento não estão mais aqui para sentir aquele cheiro juntamente comigo. 

Não é o sabor que nunca será igual - este está até bem parecido, sabe. Mas é a complexa reunião de sentimentos que estavam ali envolvidas que não existe mais e nem existirá.

Uma das partes essenciais de toda esta minha infância já se foi. O engraçado é que eu sempre achei que o biscoito de queijo remeteria apenas a minha avó, afinal, a receita é dela. Desde pequena quem eu vi amassando o polvilho, o queijo ralado, os ovos, foi ela - não ele.

Mas é ele, apenas ele, que não está mais aqui para que eu possa sentir aquele complexo emaranhado de sentimentos que eu sentia quando pequena.

Não era ele quem fazia, não era ele quem detinha a maestria da melhor receita de biscoito de queijo que existe. Ele era apenas um telespectador de toda aquela feitura, assim como eu. Ele, assim como eu, apenas se sentava à mesa e deliciava-se com aquele sabor incomparável. Ele era apenas mais um elemento ali, não?

Estou achando que não. Pior, estou sentindo isso dentro de mim. Ele se foi. Tão de repente. Não esperávamos, nem eu, nem minha avó, nem as futuras formas de biscoito de queijo.

Quando pedi para minha avó me ensinar a fazer meu biscoito favorito meu maior medo é que ela se fosse e levasse com ela esta receita primorosa. Eu gostaria de poder continuar fazendo, mantendo esta tradição, mantendo o biscoito de queijo da Dona Maria vivo em nossas famílias...

Só que não foi ela quem se foi, ela está aqui, a receita está aqui, a neta já sabe a receita e, mesmo assim, o biscoito não fica igual. E talvez nunca mais fique...

Aquele que era um mero coadjuvante desta minha memória infantil tornou-se a estrela principal. Aquele que sequer ralava o queijo para que o biscoito pudesse ser feito, agora é o que mais importa em todo este ritual e ele não está mais aqui.

Que saudade, meu querido avô. 


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